Animais domésticos pegam febre amarela?

Com o avanço no número de casos de febre amarela em todo o Brasil, é de se esperar que pessoas que cuidam de animais de estimação se preocupem. Se os mosquitos que circulam em área silvestre, Haemagogus e Sabethes, picarem cachorros ou gatos, o que acontece? Não há nenhum registro de desenvolverem a doença, até o momento. A notícia traz alívio a quem convive com esses animais. No entanto, é preciso continuar combatendo os mosquitos, evitando que se proliferem, acabando com os focos.

Quem esclarece isso é o médico veterinário e assessor científico sênior de Bio-Manguinhos, Akira Homma. “Não há evidência científica que comprove que animais domésticos contraiam a doença. Nenhum caso foi registrado até hoje. Os macacos e os humanos ficam entre as principais opções do Haemagogus e Sabethes”.

Mesmo que um mosquito com o vírus da febre amarela pique um animal, ele não transmitirá a doença. Os hospedeiros da doença são o homem e o macaco. É preciso destacar que, mesmo sendo hospedeiro do vírus, os macacos não transmitem a febre amarela e não devem ser maltratados ou sacrificados. Os transmissores oficiais são os mosquitos.

Outro mosquito preocupa
Os animais de estimação que vivem em áreas urbanas podem ser vítimas de uma outra doença transmitida por mosquito: a leishmaniose. É uma doença comum nas áreas mais quentes do país e é transmitida pela picada de insetos vetores, os flebotomíneos, popularmente chamados de ‘mosquito palha’ ou ‘cangalhinha’.

Segundo o pesquisador do Laboratório de Imunoparasitologia da Fiocruz Pernambuco, Filipe Dantas Torres, esse inseto vive em média 20 dias e costuma picar no fim da tarde e à noite. Diferentemente dos mosquitos de Aedes e Culex, as larvas e pupas se proliferam no solo rico em matéria orgânica, em locais sombreados e úmidos.

A leishmaniose visceral provoca febre, palidez, fraqueza e aumento das vísceras – principalmente do baço, do fígado e da medula óssea. Nos cães também pode haver descamação de pele e crescimento progressivo das unhas. Na leishmaniose visceral humana, os primeiros sintomas podem ser associados ao descamamento da pele – com destaque para regiões em torno do nariz, boca, queixo e orelhas, sendo frequentes também no couro cabeludo, onde estes são geralmente confundidos com caspa; e ao aparecimento de pequenos calombos no couro cabeludo.

Já a leishmaniose tegumentar compromete a pele e as mucosas. Geralmente é caracterizada pela presença de úlcera cutânea única ou em pequeno número, com bordas elevadas e indolor, embora possa assumir formas diferentes. Provoca infiltração, formação de úlceras e destruição dos tecidos da cavidade nasal, faringe ou laringe.

“Os cães são reservatórios do protozoário leishmania, o que aumenta o risco de transmissão da doença para humanos e outros cães. É muito importante que se faça um diagnóstico laboratorial para confirmar a doença e tratar o quanto antes. Os principais sintomas são febre e fraqueza, o que pode dificultar o diagnóstico”, explicou Homma.

Bio-Manguinhos possui produtos que ajudam a diagnosticar a doença. O teste rápido DPP® Leishmaniose Visceral Canina oferece o resultado em cerca de 15 minutos. Há também os ensaios sorológicos que confirmam a leishmaniose canina e leishmaniose humana, Ambos seguem a mesma metodologia de diagnóstico. Depois de confirmada a doença, é comum fazer um tratamento com medicamentos antimoniais.

Como uma forma de prevenir o mosquito, os humanos podem colocar mosquiteiros em casa e passar repelentes. “Nos animais, não pode passar repelentes pois têm a pele muito sensível. É bom evitar passear com o cachorro nos horários em que os mosquitos mais aparecem, entre 18h e 19h”, recomendou Homma.

Aumento de casos
Um homem morreu e outro está internado com leishmaniose visceral na região de Feira de Santana, que fica a cerca de 100 quilômetros de Salvador (BA). Casos da doença aumentaram em 80% com relação a 2017 em Araçatuba (interior de São Paulo). De janeiro até setembro de 2017, em Pernambuco, quase 800 cães tiveram resultados positivos para a presença de leishmania.

O Brasil concentra 96% dos relatos de casos de leishmaniose visceral nas Américas, de acordo com o último informe epidemiológico da Organização Mundial da Saúde (OMS). Para Dantas, esse contexto nacional e regional da doença traz a urgência de discussões sobre uma abordagem atualizada da leishmaniose visceral, que internacionalmente atende pelo nome de One Health (Saúde Única).

“Esse termo surgiu no século 21, como uma evolução do termo One Medicine (Medicina Única). O conceito propõe uma visão integrada da saúde, a partir do entendimento de que a saúde humana, a animal e a ambiental estão inter-relacionadas”, afirmou.

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